É ao contrário de responsável…

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É ao contrário de responsável…

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…que me sinto, quando me dão o benefício da escolha e depois descubro que não são exatamente escolhas, mas sim obrigações. E pior, não são aquelas obrigações que devem ser cumpridas pelo compromisso ético, mas sim por questões burocráticas, fazendo com que não exista uma motivação intrínseca para cumpri-las. Não é nem pela falta de incentivos, pois esses nem sempre funcionam, mas é pelo fato de não existir uma troca benéfica de ambos os lados. Por exemplo, arrumo meu quarto pois quero organização. Dada a necessidade de me nutrir e sobreviver, tomo água para me saciar e abuso do chocolate, pois a serotonina me fará feliz. Mas nunca, falando aqui com a experiência de uma adolescente, nunca faço lição de casa à toa. Cumpro essa e outras obrigações escolares com base em uma troca que, em várias ocasiões, não se relaciona diretamente ao aprendizado e se resume a um só objetivo: as notas. Claro que quando estudo, independente das notas, recebo a maior recompensa que alguém pode ter: o conhecimento. Mas o contrário disso, o não estudar nada, parece ser o estigma do adolescente comum, e são poucos os que vão em busca do conhecimento por interesse próprio.

Muitos acreditam que o mundo perfeito é aquele em que fazemos apenas o que julgamos adequado a nossas próprias vontades. E não seria ótimo se fosse assim em todos os casos? Mas o próprio ser humano aprende, cada vez mais, que a realidade não é essa, e desculpe-me informar a quem estiver lendo com olhos esperançosos, mas não há nada que se possa fazer para mudar esse quadro. Eu, por exemplo, queria ser interessada por todos os aspectos da vida; queria ser naturalmente curiosa e engajada, mas a realidade é que algumas coisas me atraem e outras simplesmente não me interessam. Do mesmo jeito que nós temos habilidades e dotes que são popularmente vinculados à palavra “natural”, temos aquelas aptidões, disciplinas e tarefas às quais não nos adaptamos, por mais esforçados que possamos ser. Há combinações que só não rolam. Eu e matemática somos assim.

E para completar, passamos agora a ganhar adesivos a cada demonstração de respeito aos valores da escola. Me sinto de volta à primeira série, quando fazia competição para ver quem conquistava mais estrelinhas, na espera de ganhar um cookie. Ou ainda pior, me sinto um animal esperando para ganhar seu prêmio, depois de ter, finalmente, aprendido que quando o dono manda sentar, é para fazer isso, e quando o dono manda rolar, é para rolar e ponto final.

É banal, como o velho truque de prometer a uma criança um pedaço de bolo como recompensa depois de um aprendizado. Na fértil imaginação de quem está promovendo esse ato, a criança não só vai aprender, como também vai continuar fazendo as próximas obrigações na esperança de um bolo. Mas a criança, já sabendo que haverá um pote de ouro no final do arco-íris, logicamente vai tentar encurtar o caminho e chegar ao bolo o mais rápido possível, do mesmo jeito que trapaceávamos na contagem de livros na primeira série, só para ganhar a competição entre alunos e receber o cookie.

Além da recompensa ser ineficiente, pois não garante nenhuma nota em troca, ela faz com que as tarefas sejam realizadas com menos atenção e frequência. Sem citar nomes aqui, logo na primeira semana do novo sistema, um colega me indagou sobre o motivo de estudar até tão tarde, quando nada do que eu estava fazendo ia, de acordo com ele, “valer alguma coisa”. A tendência é que exercícios escolares acabem rejeitados pelo simples fato de serem só mais uma ferramenta para consolidar o aprendizado.  A raiz do problema é que as tarefas se tornam, fundamentalmente, uma obrigação e não uma forma de melhorar sua nota. É matemática fácil. A questão da recompensa é fruto da mente humana, que vê obrigação como uma forma de obter algo maior. Assim que a obrigação deixa de ser efetiva e é desprovida de recompensas, não há ímpeto.

O que quero dizer com todo esse grande e excruciante desabafo sobre obrigações e escolhas é que uma escola que se diz progressiva e prepara os alunos para um futuro independente, que vai desde cursar ensino superior até começar uma vida nova em outro país, longe do abrigo dos pais, devia respeitar a ideia de liberdade e não transformá-la em obrigação, literalmente chamando atrasos, faltas, e deveres não cumpridos de ofensas, que ainda por cima são acumuladas ao longo do semestre. Não frequentamos um reformatório para declararem que um simples “esqueci” ou “não tive tempo” constitui crime, e acredito que é só errando que realmente finalizaremos mais um passo a caminho da tão desejada iluminação.

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A escolha deve ser verdadeira, e cabe a cada aluno decidir se vale ou não a pena, usando termos próprios do jargão adolescente, “vagabundear até o dia da prova e ralar na noite anterior para passar”, ou cumprir todas as tarefas porque no fundo você sabe que precisa da disciplina para se sair bem, tanto na escola quanto na vida.

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