Uma Tragédia Com Data Marcada

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Semanas após o trágico rompimento de uma barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho (MG), brasileiros se encontram em um estado de luto e de angústia pelos crimes ambientais e humanitários que foram cometidos. Além do vazamento de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos, a tragédia de Brumadinho causou aproximadamente 180 mortes e 130 desaparecimentos- termo utilizado para não dizer morto, já que não há a confirmação desses falecimentos ainda. A repercussão nacional foi de uma escala tremenda, causando grande pressão no governo mineiro e na mineradora Vale do Rio Doce, responsável por aquela barragem. Em via disso, apenas três anos após a ruptura da barragem de Mariana – considerada a maior tragédia ambiental na história do Brasil – a pergunta que nos resta é: quando será o próximo desastre?

A companhia Vale do Rio Doce, uma das principais empresas do país e a maior de seu setor, declarou que irá suspender a operação de todas as barragens construídas da mesma forma que as que havia em Brumadinho e em Mariana. “A decisão da companhia foi que não podemos mais conviver com esse tipo de barragem”, declarou o presidente da empresa na tarde do dia 30 de Janeiro. A Agência Nacional de Águas (ANA) avalia que a mineradora possui ainda 56 barragens com altos danos potenciais, todas no estado de Minas Gerais. A Vale comprometeu-se a investir R$5 bilhões para esvaziar tais estruturas, além de repassar o valor de R$100 mil para cada família das vítimas do acidente. A companhia teve R$11.8 bilhões bloqueados pela Justiça e seus engenheiros e executivos estão sob investigação jurídica.

O maior ponto de destaque do rompimento da barragem foi a fatalidade humana. Além das mortes e dos desaparecimentos, partes do município foram completamente soterradas pela “lama” que, em alguns pontos, chegava a ter mais de seis metros de profundidade. Famílias perderam suas casas, terras e, principalmente, seus meios de vida. “A hora que esta lama começa endurecer já não é mais possível vasculhar e fazer a recuperação dos corpos. Uma parte vai ficar. Daqui a 500 a 600 anos, vamos olhar para isso como se olha para Pompeia. Só que, em Pompeia, se trata de um desastre ambiental, e, aqui, um crime”, afirma a geógrafa Dra. Márcia Souza.

A Dra. Souza é educadora da Graded e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Além do fator humano, ela tem grande preocupação quanto aos danos ao meio-ambiente e suas consequências a longo prazo, explicando que “a lama já chegou a 96 km dentro do Rio Paraopeba e a biodiversidade já se foi. O nível de oxigenação está nulo”. Estima-se que cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos foram vazados, o que seria equivalente a uma área total de dois parques do Ibirapuera (204 hectares).“Os cardumes já morreram, a mortalidade de peixes já subiu e este material de rejeito nas margens está danificando a mata ciliar”, explicou Dra. Márcia. Ela também ressaltou a importância de manter, em resposta às propostas do novo governo comandado por Jair Bolsonaro, as legislações ambientais: “Na hora em que você acelera ou flexibiliza as legislações, você está comprando um risco que pode chegar ao que vemos aqui…Está claro, depois de Brumadinho, que não podemos flexibilizar as legislações [ambientais]”. Em via disso, percebemos que, embora tenhamos extensas leis e processos burocráticos, desastres como este ainda acontecem.

Além disso, a mineradora Vale vem recebendo críticas perante a forma com que suas barragens são construídas e fiscalizadas. Um aspecto que chamou a atenção foi o sistema de alarme não ter sido acionado, juntamente com a indiferença dos funcionários encarregados de cumprir medidas de emergência. Após um primeiro inquérito, a Defesa Civil do Estado concluiu que as sirenes que deveriam ter notificado o rompimento da barragem foram encobertas pela lama poucos instantes depois da quebra da estrutura, assim como os funcionários responsáveis pelo plano de evacuação morreram poucos momentos depois.

A falta de planejamento e de responsabilidade da companhia e dos terceirizados responsáveis pela fiscalização vem-se tornando o principal ponto em pauta. Há, de fato, uma grande demanda pelos cidadãos de que os responsáveis assumam este desastre. Quando questionada sobre este tema, a Dra. Márcia afirmou que “neste momento tem que se responsabilizar a pessoa que liberou o plano de evacuação; a pessoa que assinou o laudo de Setembro último que a barragem estava em ordem e você tem que responsabilizar uma escala institucional que chefia isto tudo”. Até o momento, dois engenheiros da companhia alemã TÜV SÜD, responsáveis pela fiscalização da barragem, e três funcionários da Vale foram presos. Além disso, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, ao lado de autoridades estaduais, abriram um inquérito para investigar as causas do rompimento e apontar os indivíduos por trás da tragédia. Por fim, Dra. Márcia Souza afirma que “o responsável por isso não pode ficar isento, [mas sim] arcar com suas responsabilidades”.

Por fim, a tragédia de Brumadinho trouxe cenas tristes de perda humana e ambiental. Poucos anos após Mariana, brasileiros se deparam com cenas semelhantes, em um país onde ao ser humano não é dado o devido valor. “Esta tragédia nos levantou uma alerta… Minas Gerais está coalhada de barragens com problemas que as pessoas não sabem”, alerta Dra. Márcia. O rompimento da barragem de Brumadinho liberou muito mais que milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração; também expôs a fúria dos brasileiros contra, de acordo com a população, um “sistema ganancioso”. Agora, o importante é entender as causas e evitar que novas tragédias aconteçam.

 

Fontes: Folha, G1, Estadão, Dra. Marcia Souza (Geógrafa)

 

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