É curioso pensar que pessoas que compartilham o mesmo sobrenome, as mesmas histórias e até lembranças parecidas de infância podem se tornar tão diferentes. Na minha família, isso fica muito claro. Nem todos crescemos no mesmo lugar, e dá para perceber isso mais do que parece. Minha mãe criou quatro filhos, mas em três países diferentes. Argentina, Suíça e Brasil. À primeira vista, parece algo emocionante, quase uma aventura, e é isso que todo mundo pensa quando ouve essa estória . Mas, olhando mais de perto, dá para perceber como cada lugar moldou, aos poucos, quem nos tornamos, até nas coisas mais pequenas do dia a dia.
Quem cresceu na Argentina é impossível de ignorar. Extrovertido, comunicativo, sempre rodeado de amigos, parece se encaixar em qualquer lugar, até em situações em que ninguém teria coragem de puxar conversa, falar com alguém do nada. Gosta de conversar, de aprender novas línguas e de se conectar com as pessoas. Existe uma curiosidade natural pelo mundo. Mas ao mesmo tempo, tudo é sentido com muita intensidade. As emoções vêm fortes e diretas, atingindo o coração, como se tudo fosse um pouco mais importante do que parecem, maiores do que realmente são.
Já na Suíça, o ritmo é outro. Crescer lá formou alguém mais reservado, que tem mais dificuldade em fazer amigos, mas que ainda assim encontra seu espaço, sem precisar chamar muita atenção. É uma pessoa ativa, mas de forma mais controlada, bem organizada. O que mais chama a atenção é a maneira como lida com a pressão. Quando algo fica difícil, não se desespera, se organiza, mantém o foco e consegue dar conta, como se já soubesse exatamente o que fazer. Há um senso de estrutura, de calma, e menos preocupação com o futuro, como se tudo já estivesse meio resolvido.
E tem o Brasil. Onde dois de nós crescemos, gêmeos, mas de gêneros diferentes. Mesmo com essa diferença, acabamos sendo muito parecidos. Gostamos de conversar, de estar com pessoas, de socializar. Isso vem de forma natural, quase sem esforço, como chegar em um lugar novo e, em pouco tempo, já estar falando com todo mundo. Existe um conforto em estar rodeado de gente, em compartilhar momentos e em viver o presente, principalmente nas coisas mais simples, tipo encontros com amigos ou família.
Mas, quando se trata de sair desse mundo, pensar em outras línguas, outras culturas, outras formas de viver, a sensação muda. Não é tão natural. Na verdade, pode até dar um certo medo. E como se tudo fizesse sentido dentro do nosso ambiente, e o que está fora dele fosse mais difícil de compreender, como se existisse uma divisão entre o que é familiar e o que não é. Nos encontros de família, essas diferenças ficam claras. Um fala sem parar, às vezes sem nem perceber, o outro observa em silêncio, prestando atenção em tudo antes de falar, o outro se destaca sob pressão e os gêmeos conversam, riem e reagem quase da mesma forma, muitas vezes ao mesmo tempo. Às vezes, parece que viemos de mundos completamente diferentes, não só de países diferentes. E ainda assim, somos uma família. Talvez seja isso que torna tudo tão interessante. A mesma mãe, a mesma origem, mas ambientes diferentes moldando cada um de nós de maneiras distintas. No meio disso tudo, fica difícil saber o que vem da gente e o que vem do lugar onde crescemos. Fica impossível não pensar no quanto o lugar onde crescemos influencia quem somos. No fim, os lugares por onde passamos deixam marcas na forma como falamos, pensamos e nos sentimos. E quando olho para a minha família, não consigo deixar de me perguntar. Se todos tivéssemos crescido no mesmo lugar, ainda seríamos tão diferentes, ou só pareceríamos mais iguais por não termos com o que comparar?
