O despertador toca às 6:30 da manhã e eu desligo antes mesmo de abrir os olhos. Minha mão vai sozinha, como se tivesse aprendido antes de mim. Eu não penso, simplesmente faço.
Levanto, escovo os dentes, prendo o cabelo rápido e visto qualquer roupa que pareça “certa”. Na cozinha, a luz ainda está fraca, mas já sei onde tudo fica. Pego um copo de água, e bebo como se isso fosse suficiente para começar o dia.
Não é, mas ajuda a continuar.
No caminho, o ônibus está cheio, como sempre. Gente falando alto, reclamando do trânsito, espremidos demais. Eu vou para um canto e seguro minha mochila na frente do corpo, tentando não atrapalhar. Foi assim que aprendi: nunca ocupar espaço demais.
O ônibus balança e eu me seguro em uma barra de metal, acho engraçado como sempre me seguro com facilidade. Não só em pé, quase caindo, mas em tudo – expectativas, horários, numa vida que eu nunca escolhi. Mas nunca solto, porque não é assim que se continua.
É um labirinto. Eu chego, subo, cumprimento, sorrio.
No trabalho, o som é sempre o mesmo: teclado, passos apressados, páginas virando. Sento quieta, abro o computador, respondo emails, resolvo coisas, mantendo um rosto calmo. Meu corpo funciona no automático. Desde que eu termine o que deve ser feito, cumpri meu papel.
Como sempre, alguém vem perguntando se estou bem.
Eu já sei a resposta antes de pensar. Às vezes eu digo “sim” rápido para ninguém insistir, ou como se estivesse ocupada. E funciona tão bem que ninguém percebe o quanto é automático. No fundo, ninguém quer saber se você está bem ou não, é só educação, com resposta pronta. E, se você respondeu “não”, parece que só quer chamar atenção.
Sigo o dia assim, cumpro o que deve ser cumprido, mesmo sem vontade ou energia, porque é assim que se faz. Crescemos ouvindo isso. Aprendemos a resistir às próprias vontades – a engolir o “não quero”, o “não agora”, o “não consigo”, e chamamos isso de maturidade.
Eu resisto o tempo todo. Ao silêncio quando esperam simpatia, ao “não sei” quando esperam certeza, e a parar quando tudo continua andando. Me contrariar virou hábito – e hábito, vira jeito de ser.
Ninguém me ensinou a aceitar o que não quero, ou a ter esse trabalho entediante quando eu quis ser médica, mas era “difícil” demais. Simplesmente parecia mais fácil deixar o mundo me moldar.
No meio da tarde, vou ao banheiro. Não porque preciso, mas porque preciso ficar sozinha. Tranco a porta e lavo as mãos lentamente, a água cai enquanto me encaro no espelho, enxergando esse rosto “normal”. Nada de especial, pareço alguém que dá conta.
Mas isso me estranha.
Quanto mais me encaro, mais distante me sinto. Como tentar reconhecer alguém de longe. É desconfortável, se sentir perdida, ou perceber que se perdeu dentro de si.
Em que momento comecei a resistir tanto, que me confundi com a resistência? Quem sou eu sem esse mundo ao redor?
Talvez eu não esteja só cansada dessa rotina, dos horários, das exigência. Talvez eu esteja cansada de me contrariar o tempo todo, de resistir aos impulsos e vontades. E, no meio de tantos “talvez”, percebo: não quero mais estar aqui. Não quero mais não me reconhecer. Não aguento mais.
Me olho uma última vez, destranco a porta e volto para minha mesa com o rosto pleno. Não é um milagre – mas algo dentro de mim assumiu o controle. Um impulso que resisti por muito tempo.
No bolso, pego um papel amassado, já empoeirado. Está tudo preenchido, menos a assinatura final.
Dessa vez, minha mão não se estendeu para silenciar o despertador – se estendeu para a liberdade.
Eu me levanto, orgulhosa, e entrego o papel ao meu chefe. Sem explicação. Estou cansada de me justificar para todo mundo. Já me expliquei tantas vezes que desisti dessa parte de mim.
Agora é minha vez de decidir. Se não for eu que vou embora, aquela desconhecida fica. Mas eu não fico.
Nunca me senti assim. Nunca me senti “eu”, mas esse “eu” está mais radiante que nunca. Sempre achei que as celebrações eram barulhentas e cheias de gente, mas essa festa estava dentro de mim. Dentro de alguém que sentiu falta da própria alma – e do próprio jeito.
