Quando desci do carro, o cheiro da rua já parecia antigo, nostálgico, como se tivesse ficado esperando por mim. O cheiro de grama molhada, cortina de vó, e doce de padaria e madeira do palito do picolé, os mesmos cheiros que perfumavam as minhas memórias de infância. O portão da casa era o mesmo marrom desbotado de sempre e os mesmos dois carros descansavam na garagem, a tinta metálica feita bolha de sabão no sol. Minha tia me puxou pelo braço antes mesmo de eu dizer oi.
— Ô menina, cê tá a cara do seu pai, sô! Vem cá, deixa eu lhe apertar!
Eu sorri, meio sem saber onde colocar as mãos, como responder, meio sem saber onde colocar a mim mesma. Na cidade grande, abraço assim parece exagero. Aqui era só jeito.
— Oxente, chegou, foi cedo, visse? Pensei que ia se avexar no caminho.
Avexar. Eu conhecia a palavra, mas não conhecia o peso dela. Não era só pressa: era aflição, era a sensação do coração batendo forte na garganta e ecoando na cabeça. Não existe outra palavra para descrever esse sentimento.
Dentro de casa, a conversa vinha como um rio, os assuntos sem fim. Eu ouvia e perdia pedaços.
— Ê trem danado, viu? — dizia minha tia, mexendo no fogão.
— E num é? Esse povo, como diz meu irmão, tem uma dor de cotovelo danada! Quando vê alguém vencendo na vida… — completava meu tio, cuspindo a frase como quem cospe verdade. Quem escuta uma conversa dessa nem imagina que um é advogado e a outra médica.
Eu ri sem entender totalmente. Trem não era trem. Danado não era só xingamento, e essa dor de cotovelo não era dor nenhuma.
Na mesa, o café era forte e as palavras também. Eles falavam cantando, dobrando sílaba, inventando atalhos na língua.
— Cê tá bestando, menina? Come, uai!
— Deixa de lerdeza, que daqui a pouco a gente vai dar uma volta, visse?
Eu repetia por dentro, como quem colecionava conchas na praia. Correndo atrás de cada uma antes que o mar leve embora, antes da conversa mudar de rumo. Bestando. Uai. Visse. Lerdeza.
E então, percebi: ali ninguém falava errado. Falavam do jeito que a vida ensinou. Cada expressão era uma herança, era resistência que permanecia entre gerações, sobrevivendo no tempo, ou, como diriam meus tios, uma teimosia.
Saí para a rua mais tarde e senti que, pela primeira vez, eu queria aprender a minha própria família como quem aprende uma língua nova.
Uma língua que não cabe em dicionário. Mas cabe inteira no peito.
