Foi uma noite cansativa, na hora que todo mundo já estava dormindo. Adormeci em cima dos meus estudos enquanto tentava estudar um pouco mais. Mesmo com as bebidas energéticas, não podia mais ficar acordada.
Sem perceber, fechei meus olhos. Quando os abri, percebi que não mais estava no meu quarto, mas em um outro que parecia muito familiar. Era o meu quarto de 10 anos antes, quando eu morava em outra casa em um outro país. Tudo parecia menor…ou talvez eu estava maior.
Virei e vi uma menina muito parecida comigo, que eu vagamente reconheci. Era eu, mas uma versão minha de muitos anos atrás. Ela tinha desenhado com lápis de cores usando suas mãos pequenas. Eu sentei ao lado dela e a observei por um tempinho, pensando em como começar a falar com ela:
— Então, o que você está desenhando?
Ela respondeu sem levantar o olhar:
— Eu, quando eu crescer e me tornar uma adulta.
Eu observei o desenho com mais atenção e percebi que era uma bailarina, dançando na ponta dos pés.
— Nossa, que desenho maravilhoso.
— Eu tenho mais. Quer ver?
— Claro que sim. Me mostre, por favor.
Ela folheou as páginas do caderno de rascunho, que tinha mais desenhos dela, ou de mim, como uma escritora, uma estilista, uma medalhista olímpica, e muito mais. Ela disse:
— Eu tenho muitas coisas que eu quero ser no futuro. Mal posso esperar para crescer!
Foi uma frase que eu não ouvia há décadas. Eu sempre falo que eu quero me formar, mas não quero tornar-me uma adulta. Ela perguntou:
— Como é ser uma adolescente? Você está vivendo o meu sonho. Olha você, parece muito legal. É verdade que você vai a festas todo dia e está vivendo a melhor época da sua vida?
— Não exatamente. Mas é uma vida legal também. Você vai ver.
Eu virei minha cabeça para conseguir avistar os bonequinhos de animais no chão. Eram os mesmos que agora ficam guardados. Ela percebeu que estava olhando os bonecos, sentou ao lado deles e perguntou para mim:
— Você ainda brinca com eles, né?
— Não muito. Tenho outras interações, mas eu ainda os tenho.
— Ah, é? Caso você tenha esquecido, esse é o Jerry, e aqui está o Tom…
Ela começou apontando para cada um, como se estivesse me apresentando a velhos amigos. Eu sorri, e relembrei minha infância e as brincadeiras com as bonecas.
— E você ainda brinca de hospital com elas?
— Claro! Elas sempre precisam do meu cuidado.
— Sim, elas precisam de você.
Eu me perguntei se as minhas bonecas, depois de 10 anos, ainda precisavam de mim. Ela me observou com mais atenção e perguntou para mim:
— Você sente falta de ser eu?
Eu respondi:
— Às vezes…mas todo mundo sente isso de vez em quando. É uma coisa natural sentir falta de algo que já passou. Esse sentimento não fica para sempre.
— Como assim?
Pensei por um momento, procurando palavras que ela pudesse entender.
— Sinto falta da menina fofinha que tinha curiosidade sobre tudo, sempre animada sobre as coisas do futuro, e tinha a inocência pura. Mas também, eu gosto de quem eu estou me tornando.
— Entendo…e, você ainda sonha?
Olhei para o caderno, para os bichos de pelúcia, para tudo que um dia era o meu mundo inteiro. Não tive certeza se ela estava falando sobre sonhos de dormir ou de sonhos da vida real.
— Sim, apenas de uma forma diferente da sua. Não é algo ruim, é um símbolo de que eu cresci.
Ela sorriu. Eu olhei para ela por um tempão, tentando guardá-la na minha memória. Eu senti que estava acordando, e pude sentir que ela também sabia. Eu prometi que iria visitá-la de novo.
Acordei com a cabeça ainda em cima dos meus estudos e a luz ligada. Tudo estava como antes. Abri meu caderno e pensei em continuar escrevendo, mas comecei a desenhar.
