No primeiro ano, o locker é quase um evento. É o princípio da Escola Fundamental 2. Receber um número, um lugarzinho que é somente seu dá uma sensação de organização. Você abre, fecha, abre de novo. Testa a chave como se fosse algo precioso. Coloca um caderno, depois tira, só pra ter certeza de que sabe usar. Alguns até decoram com fotos, espelhos, um toque de personalidade. No segundo ano, ele existe, mas o entusiasmo já diminui e não é prioridade. Você usa…às vezes. Quando lembra. Quando o peso da mochila realmente incomoda. No terceiro ano, o locker vira uma opção distante. Tipo “eu poderia usar..mas dá muito trabalho”. Afinal, parar no corredor, destrancar, pegar coisa, fechar…parece perda do precioso tempo que tem enquanto corre de uma aula para outra. É um novo locker a cada ano e agora você prefere carregar tudo na sua mochila. Mas cada vez que você olha dentro de sua mochila parece que um tornado passou por ali. No quarto ano, você entrou no ensino médio. Tudo bem, você pode reiniciar. Depois de uma semana é a mesma história, ele praticamente deixa de existir. A sua localização é horrível, fica na parte inferior no corredor mais ocupado. E o que ainda resta ali dentro? Provavelmente um livro esquecido, folhas amassadas e um cheiro meio duvidoso que conta a história melhor do que qualquer crônica. No resto dos 4 anos do Ensino Médio, seu locker está completamente esquecido. Você nem sabe onde o número 289 é. Dá até para dividir com um amigo e guardar coisas para depois das aulas, um locker meio Airbnb. E é aí que você percebe, quanto mais os anos se passam, menos o locker é importante. Porque outras coisas começam a pesar mais. Provas, trabalhos, expectativas, futuro. A pressão acadêmica cresce de um jeito que não deixa nem 30 segundos para você abrir uma porta de metal. O tempo encurta, as prioridades mudam. O mais irônico é que o locker foi feito justamente para ajudar, para aliviar. Mas ao longo dos anos, ele é um símbolo do contrário, de como a gente já não tem tempo nem pra usar algo que facilitaria a nossa vida. E tem também a nostalgia. Não do locker, mas de quem a gente era quando ele ainda importava. Quando havia tempo para decorar, organizar, se importar com detalhes pequenos. Hoje, as prioridades são outras. Mais sérias, mais pesadas. Menos sobre espaço, mais sobre responsabilidade.
O locker continua lá, igualzinho.
Quem mudou somos nós.
