Pepe tinha um jeito calmo de estar no mundo. Chegava sem pressa, observava primeiro, sorria. E quando começava a falar, o ambiente mudava de tom, ficava mais leve, mais atento, mais vivo. Ele tinha essa presença que fazia tudo ao redor parecer mais humano.
Pepe era movido por amor à cultura. Amava o cinema com devoção, sabia contar uma cena de um filme noir da década de 40 como quem descreve uma memória. O jazz e a ópera o encantavam, não só pela música, mas pela humanidade que via neles. E os livros… ah, os livros eram o território onde ele se sentia em casa. Lia com fome. Com ternura. E sempre tinha uma recomendação que vinha com um sorriso e uma história junto.
Ele tinha uma inteligência generosa, dessas que convidam, não que intimidam. Gostava de rir, de provocar com ironia leve, de transformar qualquer conversa num encontro verdadeiro. E era impossível ficar indiferente à sua delicadeza, aquele jeito firme e, ao mesmo tempo, suave, que deixava cada pessoa sentindo que importava.
Pepe também tinha um amor profundo pela cozinha, pela comida feita com afeto, pelas receitas que viravam rituais. Amava o Brasil com o mesmo olhar curioso com que amava Cuba, sua terra natal. Gostava de lembrar de Havana, das cores, das músicas e de como a cultura podia ser uma forma de resistência e de alegria. Na música brasileira encontrava um abrigo. Falava de Gal, de Bethânia, de Ney Matogrosso e de tantos outros como quem fala de velhos amigos, e ouvindo MPB com ele era impossível não sentir que a vida podia ser mais bonita do que parecia.
Agora que ele se foi, o departamento parece andar um pouco mais devagar, tentando entender o silêncio. Mas esse silêncio não é vazio: ele está cheio da voz dele, das risadas, das palavras deixadas nos corredores e nos abraços. Eu acho que ele não gostaria dessa analogia e me chamaria de brega, mas eu juro que é como se a presença dele tivesse virado luz, uma luz que não se vê, mas que se sente.
Escrever este texto é um jeito de agradecer. Por tudo o que ele deu, sem jamais parecer que estava dando. Por ter acreditado na beleza, na linguagem, nas pessoas.

Mario Miranda • Nov 13, 2025 at 9:22 AM
Thanks for writing this! He will be so missed. I’m beyond grateful to have been able to learn from him as a teenager who was still figuring out who he was as a gay person. The queer works he taught in his class were pivotal in my journey, and I’ll forever be indebted to Pepe for how boldly he opened our eyes to new worlds through literature. I can only hope to live my life as authentically as he lived his.
SANDRA ROLLER MENDONCA • Nov 12, 2025 at 8:52 AM
Texto escrito com todo amor refletindo nossa alma! Parabéns/ Maggie!
Marcia Souza • Nov 11, 2025 at 4:58 PM
Quantas receitas, né Pepito!
Siri • Nov 11, 2025 at 4:39 PM
Beautiful words for a beautiful man.
Bella • Nov 11, 2025 at 12:47 PM
Lindo texto, Maggie 🤍
Antonio Amaral • Nov 11, 2025 at 12:39 PM
O gigante mais dócil e sábio que já passou por nossas vidas… sua risada será ouvida na eternidade.
Mr Amaral – former Graded teacher