Esta não é uma resenha crítica da série Tremembé, que a Amazon Prime colocou no ar no início de novembro. Não! Quem quiser saber mais sobre os detalhes da série, basta dar um Google e achará inúmeras reportagens sobre como a série foi feita, por quanto tempo duraram as gravações e até como estão as personagens nela retratadas hoje.
Então, qual o objetivo deste texto? Eu pretendo descobrir durante a sua leitura e conto com sua ajuda. Por que será, hein, que Tremembé me afeta tanto?
Você precisa saber que eu tenho valores bem seguros: acredito que todo mundo merece uma segunda chance (sim, muitos dizem – com um certo tom de acusação – que eu sou “positive vibes” demais). Sim, eu não sou a favor nem da prisão perpétua, nem da pena de morte. Nada que nos impeça de aprender. Afinal, eu sigo o que aprendi de que não devemos atirar pedra se nosso telhado é de vidro (em outras palavras, sou Cristão, com C maiúsculo, fervoroso).
Mas ver criminosos como os citados na série (e não vou ficar aqui colocando os nomes deles, porque isso seria dar palco demais a quem já teve tanta publicidade) tendo regalias que a maioria dos que estão em nossos sistemas prisionais não têm, nem nunca terão, me deixou mal. Bem mal.
Nem penso nos direitos à saída temporária, aos telefonemas e às cartas a/de familiares. Não! Todo mundo merece o cumprimento justo das leis. Entretanto, pergunto-me se será mesmo justo que quem consiga pagar para ter tantos advogados acabe usufruindo de benesses que tantos outros, nas (esperadas) mesmas condições, nunca terão? Quantos filmes, livros e séries existem sobre os outros 900 mil seres humanos que hoje vivem nas celas brasileiras? (Eu mesmo respondo: conheço UM – o imperdível Estação Carandiru, que o Dr. Drauzio Varella escreveu a partir da sua experiência enquanto médico interno no famoso complexo penitenciário paulistano que existiu por quase 90 anos).
Por que a série está fazendo tanto sucesso? Sendo tão comentada? Por que uma das criminosas retratadas na série ganhou 100 mil novos seguidores em sua rede social nos últimos dias? Com tantas perguntas sem resposta, eu me pego pensando: será que não estamos fazendo o que o filósofo Guy Debord alertou para que não fizéssemos: consumir passivamente a imagem valorizada de uns poucos, sem prestar atenção à realidade em que estamos mergulhados?
Será que esta é a finalidade da série: nos obrigar a rever posicionamentos? Repensarmos se nossa justiça está organizada de modo a permitir que quem comete crimes possa, de verdade, ressocializar-se quando terminar de cumprir sua pena? Ou será que é para repensarmos que certos crimes não deveriam ter direito à progressão da pena? (Talvez os ensinamentos religiosos de quando eu era jovem ainda estejam muito fortes; afinal, se devemos honrar nossos pais, quem os mata teria direito a reduzir sua pena por meio de estudos, ou trabalho?)
Confesso que ver condenados a tantos anos de reclusão, depois de terem cometido crimes bárbaros (no sentido primeiro da palavra, de quem vivia fora dos limites das cidades romanas), estarem livres hoje, vivendo suas vidas, me deixa sem reação. Será que essas pessoas se arrependeram? Mesmo com laudos psiquiátricos atestando suas psicopatologias? Quão abertos e dispostos estamos – mesmo – a reinserir ex-presidiários em nossa sociedade? Todas estas perguntas não têm uma resposta ainda, mas, quem sabe, você possa ajudar-me a encontrar uma possível saída para tantas dúvidas que Tremembé me deixou.

