Num cenário de escola internacional no qual “ir embora” é quase visto como sinônimo de sucesso, decidir ficar no Brasil parece ser um ato de rebeldia ou até de fracasso. Estudo em uma escola americana, sigo o currículo IB, falo inglês o dia inteiro, mas ainda assim optei por ficar aqui. Porque, às vezes, o futuro não está do outro lado do oceano, mas sim onde a gente decide construir algo diferente.
Pois é. Enquanto muita gente sonha com o “American dream” e começa a fazer as malas para recomeçar a vida em outro continente, eu continuo aqui; tomando guaraná, pegando um trânsito caótico, estudando em português e acreditando que o Brasil ainda pode ser um bom lugar para crescer, profissional e pessoalmente.
Eu sempre me pego pensando: quando foi que a escolha de ficar aqui para fazer faculdade passou a ser sinal de ter falhado em entrar em faculdades no exterior? Desde quando “não ir embora” precisa de justificativa? Parece que estudar aqui virou quase um crime acadêmico, como se o conhecimento só tivesse valor se fosse carimbado por uma Ivy League. Claro que, ao dizer isso, não quero diminuir o mérito ou a credibilidade das universidades internacionais, mas apenas normalizar um conceito que virou tabu.
A verdade é que o Brasil não é um deserto acadêmico, e quem ainda acredita nisso está provavelmente preso no passado. Hoje, várias universidades brasileiras reconhecem o IB e oferecem entrada direta para alunos do programa, sem precisar passar pelo vestibular tradicional. O Insper e a FGV, por exemplo, abrem portas enormes para quem vem do currículo internacional. Já as faculdades da área da saúde, como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês, têm processos seletivos que valorizam o tipo de pensamento crítico e global que o IB desenvolve.
E o mais curioso? Esses lugares estão cada vez mais disputados, não por quem “ficou sem opção”, mas por quem escolheu ficar. Por quem vê no Brasil um terreno fértil para criar, empreender e transformar, em vez de só um ponto de partida para ir embora. Assim, o fato da minha escolha em ficar no Brasil não deve ou pode definir a minha capacidade intelectual. Pelo contrário, é um fato que mostra a minha individualidade, em que mesmo com meus colegas optando em sair do país, eu confirmo minha visão em transformar e impactar a comunidade em que cresci. Em vez de apenas buscar reconhecimento fora dela.
Mas o que me incomoda de verdade é como muitos alunos olham para quem decide ficar no Brasil: como se fosse sinônimo de desistência. Há uma ideia distorcida de que quem não vai embora “largou mão dos estudos”, “se acomodou” ou “já tem a vida garantida”. Como se o mérito acadêmico estivesse diretamente ligado ao carimbo no passaporte. Isso é, no mínimo, injusto. Ficar no Brasil não é o caminho mais fácil. É, muitas vezes, o mais corajoso. Porque aqui a gente precisa enfrentar as comparações, os julgamentos e o estigma de que só existe sucesso se ele for exportado.
Continuar aqui não significa renunciar à ambição. Significa redefinir o que é ambição. É entender que estudar no Brasil também é uma escolha de propósito, de pertencimento e de impacto real. Porque o país precisa de mentes dispostas a ficar, a inovar e a melhorar o que já existe, e não apenas a ir embora buscar o “melhor” lá fora.
Não existe nada de errado em sonhar com o exterior; o problema é achar que esse é o único sonho possível. Cada escolha carrega seu próprio valor. A minha foi ficar. E, sinceramente, fico feliz com isso. Porque o futuro que eu quero construir não depende do país em que eu estudo, mas da coragem de acreditar que dá para fazer algo grande aqui, onde tudo começou.
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