Depois de tantos anos longe do palco, fui chamada para participar de uma peça, uma adaptação do clássico Clube dos Cinco. O diretor, Luiz, me seguia no Instagram e conhecia meu primo de segundo grau, com quem eu não falava há meses. A atriz havia desistido da peça e, como solução, ele disse que eu era o perfil da personagem e que, como já tinha experiência no teatro, juntariam o útil ao agradável. Como preparação para os ensaios, fui aconselhada a assistir ao filme pelo menos duas vezes, com o roteiro adaptado em português em mãos. Esse foi meu primeiro contato com os personagens e com a Claire.
O filme é antigo e conta a história de cinco adolescentes no último ano do ensino médio que passam um sábado de detenção, cada um com personalidades distintas e estereotipadas: um rebelde rockeiro, um nerd obcecado por notas, uma emo introspectiva, um atleta popular e a Claire. Eu interpretaria a Claire, uma personagem que, a partir do segundo ensaio, passou a ser chamada de Maria Clara.
Nos primeiros ensaios, parecia simples me colocar no lugar de uma menina fictícia; a Claire era óbvia. Ela tem minha idade, cabelos castanhos, pais à beira de um divórcio e deixava explícito com quem escolhia andar. Uma patricinha clássica de filmes americanos, com bolsas de marca e viagens marcadas para todos os finais de semana, rainha do baile e extremamente descontente com suas relações mais íntimas. Meu maior desafio não era interpretar uma personagem tão evidente, mas provar que eu era diferente dela para um elenco no qual ninguém me conhecia.
Os ensaios começaram enquanto eu passava minhas férias de verão em Nova Iorque, e acabei faltando aos três primeiros. O elenco já se conhecia; eram todos jovens, apesar da diferença de idade que variava de 16 a 33 anos. Um dia depois de pousar em São Paulo, eu já estava a caminho da minha primeira leitura de mesa. A leitura acontecia em uma mesa redonda no meio do palco, com poucas luzes acesas e todos com o roteiro em mãos, atentos às falas e deixas. Começava às 19 horas e tinha previsão de terminar às 22. Três horas para ler o texto e conhecer o elenco. Fui com o cabelo solto, calça de moletom, marca-textos e uma garrafa de água que comprei nos Estados Unidos. Cumprimentei a todos e fiquei mais quieta nas duas primeiras semanas.
Um mês de ensaio se passou e o elenco já fazia cena por cena sem o roteiro, embora ninguém ainda sentisse o personagem e a conexão do grupo como no Clube dos Cinco. Fiquei mais próxima do Murilo, que interpretava o atleta e amigo da Claire na peça. No segundo mês, com ensaios longos e cansativos, o diretor começou a demonstrar certa frustração com a falta de conexão entre nós. Embora eu sempre tenha sido extrovertida, parecia impossível me conectar com pessoas tão diferentes de mim. Minha história parecia distante das histórias escondidas por trás daqueles personagens estereotipados.
Até que, um dia, nosso ensaio no auditório foi cancelado e fomos para um apartamento ensaiar. Era mais íntimo e bem menos profissional. Fizemos quatro capítulos da peça e o diretor nos interrompeu, frustrado. Luiz havia reunido cinco atores para uma história sobre amizade e resistência às diferenças, e mesmo assim nós não parecíamos amigos. Foi então que ele nos encorajou a contar as piores encrencas que já tivemos com nossos pais. Nesse dia, o ensaio terminou uma hora mais cedo. Todos riram, e algo mudou. Nossa amizade como elenco começou ali. Depois disso, os personagens também passaram a ser chamados pelo nome de cada ator.
Depois de três meses ensaiando, as apresentações finalmente chegaram. De início, não fiquei tão nervosa quanto imaginava. Me arrumei no camarim com a Jess, que interpretava a esquisita. A estreia aconteceu numa quinta-feira, e chamei minhas amigas mais próximas para assistir. A estreia no teatro sempre carrega muitas emoções; ninguém está tão preparado quanto acha para duas horas de foco total. Quando a peça terminou, descemos à frente do palco para receber o público, tirar dúvidas e ouvir elogios. Foi um verdadeiro sucesso. Depois que o público se despediu, o elenco foi celebrar junto.
Voltando para casa, comecei a refletir sobre a história da peça, pela primeira vez me colocando no lugar de uma adolescente do último ano do ensino médio e não como atriz. Eu era a única do elenco que realmente estava vivendo aquela fase da vida. Não importava o quanto eu me sentisse distante da Claire, eu parecia tão óbvia quanto ela. Uma personagem que, vista de longe, parece simples, mas que de perto revela camadas: a cobrança constante sobre quem ela é e como é vista pelos outros.
O Clube dos Cinco une adolescentes que pareciam tão diferentes e mostra como todos estão conectados pela pressão da juventude, esse momento estranho de não ser mais criança, mas também não ser adulto. A Claire me ensinou a resistir às barreiras impostas por diferenças superficiais e a celebrar conexões inesperadas. Não importa o quanto eu tentasse não ser vista como ela; quanto mais eu tentava, mais entendia que isso era exatamente o que ela faria se fosse sua própria atriz.
Hoje eu celebro sua vida como personagem e como alguém que mora dentro de mim, assim como um pouco de todo o Clube dos Cinco.
