Resposta ao texto “O sucesso não mora no CEP da universidade” – A supervalorização de estudar fora é realmente uma questão verdadeira que tem uma ideia central clara: nem sempre quem vai para o exterior sai na frente. Em muitos casos, quem fica no Brasil pode chegar ao mercado mais preparado, mais adaptado e com vantagens concretas. É um argumento válido e necessário de ter. Porém, isso não é a história inteira.
Essas últimas semanas, debatendo sobre para qual faculdade eu vou, meus amigos sempre dizem a mesma coisa: “fica no Brasil, é muito ruim ir para fora”. Os argumentos são sempre os mesmos, que os gringos são estranhos e que vou me sentir um peixe fora d’água e que o Brasil é muito mais divertido.
Para isso eu digo: “Vocês só não querem sair da zona de conforto”. É claro que existem pessoas que escolhem ficar no Brasil por razões muito válidas, mas eu genuinamente acredito que também existe uma força, talvez subconsciente, de simplesmente não querer sair da zona de conforto, da ajuda dos pais e do mesmo ciclo de amizades.
É lógico que vou sentir muita falta dos meus amigos de infância e dos programas de fim de semana, mas parte de estudar fora é viver uma experiência diferente. Não somente por ser uma diversão diferente, como os famosos jogos de college football, mas também por um lado de construção de caráter e habilidades sociais.
Estudar fora requer um nível de independência e responsabilidade similar a de um adulto e requer muita proatividade para fazer amizades novas. Alguém que nunca se colocou em situações onde são forçados a enfrentar obstáculos não desenvolve uma “armadura” necessária para o mundo verdadeiro pós faculdade.
Concordo que estar no Brasil durante a faculdade pode significar entrar mais cedo no mercado, entender melhor as dinâmicas locais e construir relações que fazem sentido no longo prazo, o famoso “networking”. Mas, até para aqueles que fazem faculdade fora e decidem voltar para o Brasil a experiência ainda é muito beneficente, em termos de networking também.
Também, a experiência internacional expõe o aluno a novas formas de pensar, a ambientes altamente diversos e, muitas vezes, a níveis de exigência que ampliam a forma como ele enxerga problemas e soluções. Não se trata apenas de “networking bonito” ou de um nome forte no currículo, mas de uma mudança de perspectiva.
Então, para esses amigos que somente criticam minha decisão de estudar fora, eu digo: não deveria ser decidir qual caminho “ganha”, mas entender o que cada um desenvolve. Um aprende a jogar bem o jogo que já conhece; o outro aprende a jogar em diferentes tabuleiros, como meu pai me disse uma vez. Ambos são valiosos.
Também é importante reconhecer que as dificuldades existem dos dois lados. Assim como há quem volte do exterior com dificuldade de se posicionar no mercado brasileiro e sofre com a distância de casa, há quem permaneça aqui e sinta falta de uma visão mais ampla, mais internacional e uma experiência “fora da bolha”. Nenhum caminho é automaticamente completo.
No fim, o erro talvez esteja na tentativa de transformar essa escolha em uma competição direta. Não é uma questão de “quem sai na frente”, mas de quais ferramentas cada pessoa constrói ao longo do caminho. Porque o mercado, cada vez mais, exige justamente isso: pessoas capazes de adaptar o que sabem a diferentes contextos.
Cada um está certo em tomar sua própria decisão. Claro que tem pessoas que tomam decisões por razões erradas, mas acredito que criticar estudar fora é uma posição talvez de mente fechada. A pergunta não deveria ser “vale mais a pena ficar ou ir?”, mas sim: o que você vai fazer com a escolha que fizer?
Porque, no fim, vantagem de verdade não está apenas no lugar onde você estuda, mas na forma como você transforma essa experiência em algo relevante.
