Nasci no dia 18 de outubro de 2007, há 18 anos. Comecei a ir para a escola em 2011, há 15 anos. Vamos fazer as contas: passo, em média, 8 horas por dia na escola, durante 200 dias por ano (como determina a lei). Ao longo de 15 anos, isso resulta em 24.000 horas de escola. Nesse mesmo período, vivi um total de 157.680 horas (18 * 365 * 24). Considerando que passei cerca de um terço desse tempo dormindo, restam aproximadamente 105.120 horas de vida consciente. Ou seja, quase um quarto da minha vida inteira aconteceu dentro de uma escola.
Desde o momento em que adquiri consciência até agora, meu objetivo na vida sempre foi um só: ir à escola. Ir bem, aproveitar a vida e as demais outras coisas relevantes à uma criança certamente influenciaram minhas decisões, mas, no fundo, eu não conseguia imaginar uma existência em que o ciclo interminável de acordar em determinado horário, ir para a escola, assistir às aulas, passar o recreio com os amigos, voltar para casa, jantar, dormir e repetir não fosse o centro do meu universo.
Como a morte, eu sempre soube que essa vida (a vida do Rafael que acordava em determinado horário, ia para a escola, assistia às aulas, passava o recreio com os amigos, voltava para casa, jantava, dormia e repetia) chegaria a um fim. E, assim como a morte, esse fim era algo completamente abstrato; a palavra “formatura” não continha significado algum além das sílabas que a constituíam. Era apenas uma sequência de sons que representava algo além da minha compreensão (e, portanto, não representava nada).
Agora, sento aqui, encarando diretamente essa morte. Pois é isso que ela é: uma morte. Não que seja uma ocorrência incomum, estamos sempre morrendo: por exemplo, o menininho que eu era quando entrei na Graded, há 10 anos, é completamente inacessível para nós; ele se mantém vivo apenas na memória que temos dele. A diferença, desta vez, é que essa morte tem data marcada.
Tudo isso para dizer que os seniors são um grupo de pessoas em luto: luto pelas conexões que vão se degradando, luto pelas experiências que não se repetirão, pelos lugares, pelas coisas, pelas pessoas e, acima de tudo, luto por si mesmos. E, ao mesmo tempo, os seniors não poderiam estar mais excitados pela vida que seguirá depois desta: pela liberdade que há de chegar, pelas novas amizades, pela nova casa que iremos construir, entre tantas outras possibilidades.
Acredito que seja justamente esse paradoxo a causa da infame “senioritis”. O confronto direto com a nossa “mortalidade”, justaposto à grandeza e à beleza da vida após essa “morte”, expõe a banalidade e a insignificância dos rituais da nossa rotina. Em outras palavras, percebemos que nada importa e simplesmente tacamos o foda-se (absurdismo em sua forma mais pura).
Talvez seja justamente isso que torna este o momento mais difícil para ensinar seniors: não é desinteresse, mas transição. Estamos com um pé em um mundo que já acabou e outro em um que ainda não começou. E, nesse intervalo entre o luto e a expectativa, a rotina e a liberdade, aprender deixa de ser apenas “cumprir tarefas” e passa a ser uma escolha consciente: uma reflexão de quem queremos nos tornar e quem estamos com medo de perder.
Mesmo assim, as rotinas banais persistiram até o último momento, e devemos, não a nós mesmos, mas aos adultos em nossas vidas que tanto se dedicaram para nos ajudar a alcançar este exato momento, continuar a segui-las.
